30 anos depois da Fertilização in vitro – Ganhos além da infertilidade
Agosto / 2008
Selmo Geber
Professor da UFMG,
Doutorado pela Universidade de Londres
Ex presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida

Há 30 anos foi anunciado o nascimento do primeiro bebê de proveta e da técnica que iria revolucionar o tratamento para a infertilidade conjugal. Criada para solucionar dificuldades de um casal em obter uma gravidez - devido à obstrução das Trompas de Falópio em casos ditos inoperáveis - a Fertilização in vitro ( nome técnico do já consagrado bebê de proveta), surgiu em um período pós revolução sexual e liberação da sexualidade feminina.

Com a liberação sexual, aumentou também a incidência de doenças sexualmente transmissíveis e, conseqüentemente, da doença inflamatória pélvica que, por sua vez, levou a uma maior freqüência de obstrução de trompas e infertilidade. A cirurgia para correção da obstrução tubária é uma técnica com indicações limitadas, daí a necessidade de desenvolver uma técnica que pudesse substituir os fenômenos que ocorrem na trompa.

Nesse período de 30 anos diversos desdobramentos ocorreram com a técnica, permitindo uma maior facilidade para as pacientes, e um maior número de indicações para o tratamento. Medicamentos que controlam o ciclo menstrual permitem um controle do ciclo sem risco de ovulação e os que induzem a ovulação podem ser aplicados pela pacientes. As coletas ovulares - antes procedimentos complexos - são realizadas de forma simplificada.

Foi desenvolvida a técnica de injeção de um único espermatozóide dentro do óvulo (ICSI), revolucionando o tratamento da infertilidade de causa masculina. Atualmente chegamos à situação paradoxal de ter uma gravidez a partir de um tratamento com 10 óvulos e 5 espermatozóides, ao invés do habitual 1 óvulo para 100 milhões de espermatozóides.

Mulheres que não possuem mais óvulos (devido a tratamento anterior com retirada dos ovários ou mesmo por quimioterapia ou radioterapia, ou devido à menopausa), podem conseguir uma gravidez através da técnica de FIV utilizando óvulos de uma doadora. Assim, essa técnica abriu uma alternativa de constituir família para mulheres que antes não tinham essa possibilidade.

Para os casos de mulheres que tiveram o útero retirado por motivos de doença prévia, o advento das técnicas de reprodução assistida também permitiu a possibilidade de gravidez. Para isso, utiliza-se a fertilização in vitro, e os embriões obtidos em laboratório são posteriormente transferidos para o útero de outra mulher. Essa técnica é chamada de útero de substituição.

Alem dos avanços específicos para o tratamento da infertilidade, o desenvolvimento da técnica de reprodução assistida permitiu também a ajuda a diversos outros casos médicos.

A técnica de diagnóstico genético pré-implantação permite que os óvulos fertilizados no laboratório, e que formaram embriões antes de serem transferidos para o útero, possam ser biopsiados para retirada de uma célula. Essa célula pode então ser estudada geneticamente e os embriões que apresentem a doença não serão transferidos para o útero, evitando assim a transmissão de doenças genéticas para os filhos de casais com risco aumentado.

Essa alternativa evita que esses casais tenham filhos doentes ou necessitem de alternativas como a doação de óvulos ou espermatozóides. Em teoria qualquer doença genética que possa ser diagnosticada pode ser beneficiada por essa técnica. Os exemplos são a distrofia muscular, fibrose cística, Anemia de Fanconi, adrenoleucodistrofia, translocacões cromossômicas e mosaicismos.

Com os avanços obtidos no tratamento para a AIDS, casais com parceiros com esta doença - que antes queriam constituir família - atualmente mudaram esse conceito. Uma das dificuldades observadas está nos casos de casais soro discordantes, em que o coito descoberto (sem uso de preservativo) pode levar a um aumento no risco de contaminação do parceiro. Para esses casos, as técnicas de reprodução assistida permitem que a fecundação ocorra em laboratório e o embrião seja transferido diretamente para o útero, sem o contato desprotegido, reduzindo bastante os riscos de transmissão ( na verdade, até o momento não existe nenhum caso relatado na literatura médica).
 
 
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